O Sul de Santa Catarina deve entrar nos próximos meses sob influência de um El Niño cada vez mais intenso. A expectativa é de que o fenômeno climático ganhe força entre o fim do inverno e o início da primavera, aumentando a atenção para períodos de chuva persistente e ocorrência de temporais.
A atualização mais recente do Centro de Previsão Climática (CPC), ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), aponta uma probabilidade elevada de que o episódio alcance intensidade muito forte entre setembro e outubro. A estimativa também indica possibilidade de que este seja um dos episódios mais intensos registrados desde 1950.
Para o Sul catarinense, o cenário merece atenção principalmente pela combinação entre o aumento da chuva e a característica de algumas bacias hidrográficas da região. De acordo com a meteorologista Marilene de Lima, da Epagri/Ciram, setembro já pode apresentar volumes acima da média, enquanto outubro e novembro concentram uma preocupação ainda maior.
“A gente já espera o mês de setembro com chuvas acima da média, e esses acima da média podem variar de 100 a 200 milímetros, mas preocupa principalmente os meses de outubro e novembro”, explica Marilene.
Segundo a meteorologista, episódios anteriores de El Niño classificados como moderados ou fortes já provocaram volumes expressivos de chuva em Santa Catarina. Em determinados períodos, novembro chegou a registrar acumulados de 300 a 400 milímetros acima do esperado.
O problema, porém, não está apenas no volume total. A sequência de dias chuvosos também pode aumentar os riscos.
“A preocupação maior não é só em relação ao total de chuva, mas principalmente a sequência de dias consecutivos com chuva”, afirma.
Chuva persistente aumenta risco no Sul
A possibilidade de períodos prolongados de chuva preocupa especialmente municípios localizados próximos a rios e inseridos em grandes bacias hidrográficas.
No Sul do Estado, o Rio Tubarão é um dos exemplos citados pela meteorologista. A bacia possui uma área extensa de contribuição, fazendo com que a água proveniente de diferentes pontos seja direcionada para o sistema.
“O Rio Tubarão tem uma bacia bem ampla, então isso traz maior preocupação em relação às chuvas do Sul, por conta das chuvas que descem ali, em forma de chuva intensa, ou como consequência de chuva intensa, causando enxurradas”, explica Marilene.
Além de Tubarão, Araranguá e outras localidades do litoral Sul também aparecem entre as áreas que historicamente podem sofrer consequências de eventos de chuva extrema ou persistente.
A combinação entre solo encharcado e novos períodos de precipitação também pode favorecer deslizamentos. Nas cidades, outro fator de preocupação é a menor capacidade de absorção da água em áreas urbanizadas.
“A absorção, a permeabilidade do solo é menor, então a consequência disso pode ocorrer. Aí inundações que podem durar um período maior ou menor”, destaca a meteorologista.
Temporais também podem ganhar força
O El Niño não significa que todo o Estado terá chuva intensa de maneira contínua. O fenômeno altera os padrões atmosféricos e pode favorecer determinados sistemas meteorológicos, mas a ocorrência de cada evento depende também das condições presentes no curto prazo.
No Sul catarinense, entretanto, a primavera costuma ser uma estação de atenção para temporais. A intensificação do El Niño pode contribuir para que alguns desses sistemas sejam mais fortes.
Por isso, a orientação é acompanhar diariamente as previsões e os avisos meteorológicos, principalmente durante períodos de instabilidade.
“É bom sempre considerar que tudo pode evoluir para um cenário de risco. A recomendação principal sempre é acompanhar diariamente a atualização das previsões”, orienta Marilene.
Temperaturas também podem oscilar
A influência do fenômeno não deve se limitar às chuvas. A aproximação da primavera também costuma provocar mudanças mais rápidas nas temperaturas.
Com o avanço da estação, os períodos de frio intenso durante a noite tendem a ficar menos frequentes, enquanto as tardes podem apresentar aquecimento significativo. Em determinadas situações, a chegada de uma frente fria provoca um aumento acentuado da temperatura antes da mudança do tempo.
É a chamada condição pré-frontal.
Segundo Marilene, a diferença entre a temperatura mínima registrada pela manhã e a máxima da tarde, que normalmente fica próxima de 10°C, pode chegar a 15°C ou até 20°C em determinadas situações.
“Às vezes, as temperaturas chegam a ficar cinco graus acima das máximas registradas nos dias anteriores”, explica.
O que muda para o Sul catarinense?
A intensificação do El Niño aumenta a necessidade de preparação, mas não permite afirmar que uma determinada cidade terá necessariamente uma enchente, deslizamento ou temporal de grandes proporções.
O risco depende da combinação entre o fenômeno climático e sistemas meteorológicos específicos que atuam sobre Santa Catarina.
Para municípios como Tubarão e Araranguá, o histórico de ocorrências relacionadas à chuva e a localização próxima a rios e bacias hidrográficas fazem com que o acompanhamento seja ainda mais importante.
A meteorologista reforça que a população deve priorizar informações divulgadas por órgãos oficiais, especialmente diante da grande quantidade de previsões compartilhadas nas redes sociais.
“O compromisso com a segurança, informação confiável que vai resultar em procedimentos de acordo, sempre são feitas por órgãos oficiais. A dica principal é essa: acompanhar sempre e manter-se diariamente informado”, afirma.
A Defesa Civil de Santa Catarina também mantém o monitoramento das condições atmosféricas e das projeções climáticas para os próximos meses. A evolução do El Niño será acompanhada em conjunto com outras instituições, permitindo atualizar os cenários de risco conforme novas previsões forem divulgadas.
Para o Sul catarinense, a chegada da primavera, portanto, vem acompanhada de um alerta que vai além de um simples aumento da chuva: períodos prolongados de precipitação podem elevar gradualmente o risco de alagamentos, inundações, enxurradas e deslizamentos, especialmente em áreas urbanas, margens de rios e locais onde o solo já esteja saturado.
A recomendação pode fazer diferença quando o tempo virar: acompanhar as atualizações oficiais diariamente e não esperar a água subir para começar a se preocupar.





