Histórias compartilhadas com o próximo foi destaque em evento da universidade catarinense
Uma menina que aprendeu a ler escondida atrás da porta. Uma adolescente de 14 anos que começou a trabalhar numa fábrica de costura. Uma estudante que passava a limpo os cadernos da irmã mais velha. Essas histórias abriram a roda de conversa com pesquisadoras da Unesc realizada na manhã desta sexta-feira (30/10), último dia da 17ª Semana de Ciência e Tecnologia (SCT) da Unesc. Mediado pelas professoras Vanessa Moraes de Andrade, pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação, Inovação e Extensão, e Gislaine Zilli Réus, pesquisadora coordenadora da SCT, o encontro reuniu representantes de oito programas de pós-graduação da Universidade.
No encontro que seguiu a temática central da Semana, “Ciência Delas”, ao contar suas trajetórias, elas mostraram que rigor científico e afeto andam juntos.
A menina que escutava atrás da porta
Entre as convidadas da manhã de compartilhamentos, esteve a médica ginecologista Maria Inês da Rosa, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSCol) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS). Ela começou com uma pergunta ao público: “em que momento alguém se torna pesquisador?”.
Para responder, voltou aos anos 1960, quando tinha quatro anos e morava com a família num sítio no interior do Rio Grande do Sul, numa casa de madeira com água de poço e luz de velas. A mãe, professora, alfabetizava os filhos dos vizinhos em casa. Proibida de participar por causa da idade, a menina acompanhava as lições escondida e aprendeu a ler.
Ela, que se consolidou como pesquisadora aos 50 anos, fez questão de destacar que idade não é limite para começar. “Aquela menina de quatro anos que fazia perguntas continua muito viva em mim”, afirmou.
As histórias se cruzaram também na fala de Merisandra Côrtes de Mattos Garcia, do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Produtivos (PPGSP). Ela contou que cresceu numa casa de muitos livros e muita música, filha de um militar que valorizava a cultura e o conhecimento. Entre as enciclopédias da estante, a que mais a atraía era “Mulheres Imortais”, com perfis que iam de rainhas a cientistas.
Conforme Merisandra, a palavra “porquê” a acompanha desde sempre, e foi essa ousadia que a levou, aos seis anos, a bater na porta da diretora para pedir uma vaga na primeira série, antes da idade permitida e ela conseguiu.
“Cheguei em Criciúma em 2000, numa época em que a Unesc já era conhecida como a Universidade do Abraço, algo que segue como forte característica até hoje e faz toda a diferença”, garantiu.
Raízes que sustentam o voo
Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA), Vanilde Citadini Zanette é filha de um motorista de táxi e de uma trabalhadora doméstica. Ela, que fez parte da primeira turma da instituição e se formou em Ciências em 1973, criou o herbário da Unesc em 1992 e também começou o doutorado perto dos 50 anos.
Segundo ela, o trabalho com pesquisa começou numa época em que a Universidade ainda não tinha estrutura neste eixo e tudo foi construído com garra e vontade de vencer. A família, de acordo com a professora, é a base sólida que a sustentou, entendendo suas ausências e a incentivando mesmo quando ela sentia culpa por estar longe. “Digo para vocês que não desistam dos seus sonhos. Sempre vai ter altos e baixos, mas os altos compensam”, aconselhou.
A reitora em exercício, Gisele Silveira Coelho Lopes, do Programa de Pós-graduação em Gestão em Saúde (PPGGS), relembrou a trajetória de trabalho que começou aos 14 anos como forma de ajudar no sustento da casa, já que o pai, mineiro, havia ficado desempregado, e a mãe trabalhava como costureira.
“Foi diante da máquina de costura que surgiu minha curiosidade sobre o desempenho humano e a forma como as pessoas se percebem no trabalho”, comentou, ao ingressar em uma fábrica com 600 mulheres, sem experiência, mas muita vontade de aprender e fazer a diferença.
Ao chegar ao Trabalho de Conclusão de Curso em Administração, Gisele ainda não sabia o que queria investigar, até que a orientadora lhe perguntou o que mais a intrigava. A resposta foi entender as pessoas, e desde então o comportamento humano no mundo do trabalho é o centro de seus estudos. “As pessoas imaginam que eu sou da área dos cálculos, mas eu sou da qualitativa. Eu estudo comportamento, porque gestão é comportamento”, esclareceu. No doutorado, analisou a crise institucional que viveu como chefe de gabinete e se dedicou ao que chamou de “lugar de quem assina”, ou seja, a solidão de quem tem a caneta na mão e toma as decisões.
Conforme a reitora, ser líder é muitas vezes caminhar sozinho. Ela foi pró-reitora duas vezes e nunca teve bolsa de dedicação exclusiva. “Hoje eu faço pesquisa fazendo gestão. Faço isso em rede, porque sozinho a gente não consegue nada”, explicou. Sua principal inquietação hoje é como garantir qualidade de vida, saúde mental e saúde física em tempos de hiperconectividade.
Ciência não é ausência de emoção
Débora Ferrazo, do Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD), celebrou seu aniversário nesta sexta-feira recebendo afeto e compartilhando experiências na roda de conversa. Ela contou que se sentiu cientista pela primeira vez aos sete anos, quando viu um avestruz numa viagem e pediu caderno e lápis para descrever tudo e não esquecer nenhum detalhe.
Ela chegou à Universidade em 2015, foi acolhida com carinho e diz que ali se encontrou e nunca mais quis sair. O pai, mecânico de máquinas agrícolas, morreu em 2010 e não a viu concluir nenhuma das formações, mas, conforme a professora, a academia lhe deu um segundo pai. Da mãe, cozinheira, herdou a garra para nunca desistir. “Assim como a coragem não é ausência do medo, a ciência não é ausência de emoção. É a gente saber lidar e experimentar o encantamento”, refletiu.
Para Ângela Cristina Di Palma Back, do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), cada pessoa se torna pesquisadora na relação com os outros. Ela fez questão de falar em nome das seis professoras do seu Programa, com quem compartilha experiências e as quais representa na oportunidade.
Em sua visão, a produção científica não se resume a artigos publicados em revistas de alto impacto. “A produção, ao meu ver, acontece todos os dias, quando o estudante de TCC fica com os olhos brilhando ao perceber uma realidade que antes estava oculta, ao prepararmos as aulas de disciplina e em tantas ações que fazemos que não são revertidas exatamente em publicações de alto impacto. Tomar consciência das coisas e compartilhá-las também é uma forma de produzir”, destacou.
Redes que mantêm de pé
Representando o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioeconômico (PPGDS), Giovana Ilka Jacinto Salvaro contou que começou a pesquisar a partir de duas desigualdades que marcaram sua vida, a de classe e a de gênero. Psicóloga, está no programa desde 2011.
“Sou profundamente grata às mulheres que abriram caminho para que pudéssemos estar aqui, pesquisando, ocupando espaços, fazendo ciência, mesmo que tantas vezes sejamos questionadas. Nosso trabalho é feito de pesquisa e muito afeto e acredito que seja exatamente esse segundo o que nos sustenta nessa trajetória”, pontuou.