Estudo do Laboratório de Psiquiatria Translacional envolve seis unidades básicas de saúde
A iniciativa dá continuidade ao primeiro estudo nacional, realizado entre 2011 e 2012, que identificou cerca de 26% de casos prováveis de depressão entre as mulheres avaliadas. Outro levantamento, baseado em dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 e publicado em 2025, encontrou sintomas depressivos em 34,1% das 986 mulheres no período pós-parto analisadas. Os resultados não são diretamente comparáveis, já que os estudos consideram populações e instrumentos de avaliação diferentes.
É nesse cenário que a Unesc desenvolve uma investigação dedicada a compreender de forma mais ampla a saúde mental das mulheres no puerpério, considerando sintomas depressivos, ansiedade, estresse, sono, rotina, apoio social e funcionamento psicossocial.
Um olhar para a mãe
Realizada pelo Laboratório de Psiquiatria Translacional da Unesc, a pesquisa começou em julho de 2025 e envolve seis Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Criciúma. Cerca de 60 mulheres já participam do estudo, cuja coleta seguirá até julho de 2027.
Podem participar mulheres com mais de 18 anos, incluídas até 30 dias após o parto. Durante as entrevistas, elas respondem a questionários sobre aspectos sociodemográficos, gestação, parto, condições de saúde do bebê, apoio emocional, qualidade de vida e funcionamento, além de instrumentos específicos para rastrear sintomas de depressão, ansiedade e estresse.
Entre eles está a Escala de Depressão Pós-Natal de Edinburgh (EPDS). A professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS), Gislaine Zilli Réus, explica que o instrumento não substitui uma avaliação clínica. “Ela é uma escala padronizada, mas ela não dá diagnóstico. Ela faz uma triagem”, esclarece. A partir dos resultados, as participantes são divididas em dois grupos, ou seja, aquelas com triagem positiva para sintomas de depressão pós-parto e aquelas com triagem negativa.
Resultados chamam atenção
Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, os primeiros dados já começam a revelar diferenças entre os grupos. De acordo com Gislaine, aproximadamente metade das mulheres entrevistadas até agora apresentou triagem positiva. “A gente não esperava encontrar tantas mulheres com triagem positiva e tantas alterações”, conta.
Entre os resultados observados estão diferenças na percepção de apoio social. As mulheres com triagem positiva relatam perceber menos suporte ou considerar inadequado o apoio recebido. Também aparecem diferenças relacionadas à amamentação, com maior dificuldade e menor tempo de aleitamento entre essas participantes.
O grupo com triagem positiva também apresentou maior intensidade de sintomas de depressão e ansiedade, alterações nos ritmos biológicos, menor número de horas de sono, pior qualidade do sono e diferenças relacionadas ao funcionamento.
Outro aspecto observado envolve experiências vividas na infância. As mulheres com triagem positiva apresentaram maior frequência de relatos relacionados a traumas, incluindo negligência emocional. A pesquisa também encontrou relação entre essas experiências e a percepção de apoio social na vida atual. Os resultados são preliminares e fazem parte de uma investigação que continuará recebendo participantes e aprofundando as análises.
Quando a mãe também precisa ser vista
Para Gislaine, olhar para a saúde da mulher nesse período é necessário porque a atenção costuma estar concentrada no bebê. “Todo mundo olha para o bebê. E a gente esquece da mãe”, afirma. O nascimento de uma criança envolve mudanças hormonais, físicas, emocionais e sociais. Ao mesmo tempo em que a mulher passa a cuidar de alguém que depende dela em tempo integral, pode enfrentar dificuldades para dormir, amamentar, reorganizar a rotina e lidar com as próprias emoções. Essa percepção também aparece na experiência de Larissa Cristine Pereira, integrante da equipe de pesquisa.
“O que mais me chamou a atenção é que os transtornos mentais, esse sofrimento, ele é muitas vezes não visto, e principalmente na mulher, porque quando a gente fala de pós-parto, é um momento em que todas as atenções estão voltadas para o bebê. Então todo mundo quer saber como o bebê está, até como foi o parto, e aquela mãe e aquela mulher acaba sendo esquecida nesse processo”, observa.
Segundo Larissa, existe ainda uma expectativa de que a chegada de um bebê esteja necessariamente associada à felicidade. “A gente tem uma concepção muito errada de que o pós-parto e a vinda de um bebê só trazem coisas felizes e que infelizmente não é a realidade de todas as mulheres”, afirma.
Uma experiência que também trouxe respostas
Mãe de três filhos, Andréa Cerqueira de Melo participou da pesquisa após o nascimento de Alice, hoje com 11 meses. Mesmo já tendo vivido outras gestações, ela conta que a chegada da filha representou um novo começo.
“Você está entrando em um mundo novo. Mesmo para mim, que já tenho outros dois filhos, eu estava recomeçando”, relata.
A gravidez aconteceu de forma inesperada, mas foi acompanhada de expectativa e alegria. Ao mesmo tempo, Andréa viveu um período emocionalmente intenso. Quatro dias depois do nascimento da filha, perdeu o pai. A gestação havia sido dividida entre os cuidados com ele no hospital e a proximidade do nascimento da bebê. Depois do parto, ela quis compreender melhor o que estava sentindo e se era possível conciliar emoções tão diferentes.
“Eu queria entender qual emoção estava me movimentando mais e se eu conseguiria administrar as duas coisas, a alegria e o luto”, conta. Em meio à rotina de cuidados com Alice, Andréa também percebeu uma necessidade que muitas vezes fica escondida.
“Você quer ser vista com seu bebê, quer que as pessoas olhem para ele, elogiem, mas você também quer que vejam você. Eu precisava de atenção”, lembra. Para ela, participar da pesquisa acabou sendo uma experiência de troca. “Acabou sendo uma contribuição dupla. Não só da minha parte para a pesquisa, mas também da pesquisa para mim”, conta.
Da pesquisa à formação médica
A pesquisa nasceu inicialmente como um Trabalho de Conclusão de Curso desenvolvido por Larissa e uma colega e, posteriormente, ganhou uma dimensão maior dentro do Laboratório de Psiquiatria Translacional.
Hoje, ela participa do contato com as UBSs, do recrutamento das puérperas, das entrevistas e da coleta de sangue. Para Larissa, a experiência também tem contribuído para sua formação profissional.
“Como futura médica, eu acho muito importante entender que a saúde mental precisa ser perguntada ativamente. Precisa ser questionada, precisa ser um tópico da nossa consulta, porque muitas vezes isso é algo que as pessoas carregam sozinhas e às vezes até menosprezam esses sentimentos”, relata.
A vivência, segundo ela, também amplia o olhar para além da saúde mental materna. “Acredito que eu vou conseguir olhar muito melhor para a saúde mental não só das mulheres, mas do público em geral e acolhê-los e instruí-los”, completa.
O cuidado começa também pela escuta
O médico João Vítor Santana Cecchetto Mendes, que atua em uma das unidades de saúde envolvidas no estudo, acompanha de perto essa realidade. Para ele, muitas mulheres acabam deixando de olhar para si mesmas diante das novas responsabilidades.
“Muitas deixam de viver para elas, e vem o atraso do diagnóstico, a exclusão pessoal, a sua não percepção de si mesma. Essa pesquisa espero que venha muito para melhorar e fazer com que elas olhem para si”, afirma.
A pesquisa também considera a importância da rede de apoio. Familiares, companheiros e amigos podem fazer diferença no período pós-parto, mas nem todas as mulheres contam com uma rede disponível. Por isso, a equipe defende um olhar que considere a mulher de forma integral.
Além das entrevistas e questionários, a pesquisa realiza a coleta de sangue das participantes. As amostras são processadas inicialmente nos laboratórios da Unesc e armazenadas para análises bioquímicas futuras. A intenção é investigar possíveis marcadores biológicos que possam ajudar a compreender melhor os fatores relacionados às alterações psicológicas observadas.
Para Gislaine, o trabalho precisa ultrapassar os limites da universidade e retornar para os serviços que acompanham essas mulheres. “O cientista sempre pensa em gerar dados e publicar esses resultados para a comunidade científica. Mas a gente também quer levar esses dados para a unidade básica de saúde, mostrar para a nossa comunidade e até para os órgãos públicos que está acontecendo isso”, explica.
Compreender o que acontece com as mulheres no período pós-parto também significa ampliar a atenção oferecida às famílias. E, antes de qualquer diagnóstico, existe uma atitude que pode fazer diferença, ou seja, perguntar como aquela mãe está.