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Estudantes de Guiné-Bissau iniciam trajetória acadêmica na Unesc

Na sala de reuniões da reitoria da Unesc, antes das apresentações formais, estavam estudantes que haviam atravessado o Atlântico. Iancuba Sadjo, Nura Paulino Tipote e Tozi António Loio iniciaram nesta semana a vida acadêmica na Universidade depois de uma viagem que começou em Guiné-Bissau e terminou nos corredores, salas de aula e laboratórios do campus. Para eles, os primeiros dias não são apenas o início do semestre, mas a continuidade de uma longa travessia que agora segue em águas mais tranquilas.

O idioma é o mesmo, a Língua Portuguesa, e os destinos acadêmicos agora se cruzam no Sul do Brasil, a um oceano de distância da terra natal. Para Iancuba, a decisão de cursar Administração nasceu de pesquisas sobre a região, identificada por ele como referência econômica e educacional. Santa Catarina surgiu como território possível e, por consequência, a Unesc.

Os estudantes se conheceram antes mesmo da viagem em um vínculo criado durante o processo seletivo no país de origem, quando a preparação para o embarque também serviu de primeiro ensaio de convivência.

Para a futura administradora Nura Paulino Tipote, o caminho até o Brasil teve um guia mais próximo. Um tio que vive há cerca de oito anos em Florianópolis indicou a Universidade e ajudou a transformar a ideia em projeto concreto.

Acolhimento como primeiro território
Os acadêmicos foram recepcionados pela reitora em exercício, Gisele Silveira Coelho Lopes, que apresentou o modelo de Universidade Comunitária e a gestão democrática da Universidade. Segundo ela, essa característica reforça a participação ativa da comunidade acadêmica na vida universitária.

“Todos os estudantes contam com uma rede institucional de apoio que envolve coordenadores de curso, professores e setores administrativos. A trajetória de vocês precisa ser leve e é importante que vocês identifiquem as dificuldades e procurem orientação para superá-las. Os professores atuam como mediadores do processo formativo e incentivam o desenvolvimento da autonomia acadêmica, ao indicarem caminhos, mas vocês precisam construir o próprio percurso de aprendizagem”, diz.

Vindos de um país da África Ocidental com cerca de dois milhões de habitantes e marcado por uma diversidade cultural que reúne diferentes etnias e línguas locais, os estudantes cresceram em um sistema educacional onde o acesso ao ensino superior ainda é limitado e concentrado em poucas instituições.

Tozi António Loio chegou ao curso de Biomedicina por um caminho indireto. O objetivo inicial era Medicina. O processo exigia duas opções de curso e, ainda sem conhecer a área, ele escolheu Biomedicina como alternativa. A decisão foi também influenciada porque o curso ainda não está plenamente consolidado no sistema educacional de Guiné-Bissau.

Depois da chegada, a escolha deixou de ser circunstancial. O interesse pela área cresceu e passou a integrar o plano de formação. A experiência acadêmica começa a adquirir sentido próprio.

O acolhimento também envolveu o coordenador do curso de Administração, Thiago Francisco, e o coordenador de Biomedicina, Hugo Galvane Zapelini, que apresentaram as estruturas acadêmicas e relataram experiências anteriores com estudantes internacionais. Alguns egressos retornaram aos países de origem e hoje atuam como profissionais ou docentes, mantendo vínculos com a Unesc.

Entre os que participaram do encontro estava também o professor do curso de Administração, Mouhamadou Moustapha Seydi Djamil. Natural do Senegal e há 14 anos no Brasil, ele compartilha a própria experiência de adaptação. “Tudo é possível nesta vida, basta querer”, afirmou aos novos acadêmicos.

Atravessando fronteiras
A chegada dos estudantes integra o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), uma das políticas públicas brasileiras mais duradouras de internacionalização acadêmica. Criado em 1964 pelo Ministério das Relações Exteriores, o programa oferece formação superior gratuita a estudantes estrangeiros em universidades brasileiras.

Hoje o PEC-G funciona em parceria com o Ministério da Educação, a Capes e o CNPq, ao reunir cerca de 104 instituições e estudantes de dezenas de países da América Latina, Caribe, África, Ásia e Europa Oriental.

Com seis décadas de existência, o programa já formou mais de dez mil estudantes. O processo seletivo de 2026 registrou mais de 3,2 mil candidatos de 55 nacionalidades, distribuídos em universidades por todo o território nacional.

“Na Universidade, o programa mantém presença contínua desde 2008. Ao todo, 22 estudantes internacionais já passaram pela Instituição nesse período, em cursos como Administração, Arquitetura e Urbanismo, Fisioterapia, Direito, Psicologia, Farmácia, Engenharias e Biomedicina”, comenta a coordenadora do Escritório de Relações Internacionais, Dayane Cortez.

A recepção ainda contou com a presença da pró-reitora de Ensino, Graziela Giacomazzo, a pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação, Inovação e Extensão, Vanessa Moraes de Andrade e a assessora do Escritório de Relações Internacionais, Cinara Ludvig Gonçalves.